O que está acontecendo com o gelo da Antártida?

Quando uma notícia diz que o gelo da Antártida diminuiu, a frase parece simples, mas pode se referir a partes muito diferentes do sistema. Há gelo marinho, formado sobre o oceano; plataformas flutuantes ligadas ao continente; geleiras; neve acumulada; e o enorme manto de gelo apoiado sobre a terra. Cada componente responde de forma própria à atmosfera e ao oceano.

Em setembro de 2026, o gelo marinho antártico provavelmente atingiu o terceiro menor máximo da série de satélites, segundo a avaliação preliminar do National Snow and Ice Data Center, o NSIDC. Ao mesmo tempo, medições de gravidade mostram perda de massa do gelo continental nas últimas décadas. Entender o que está acontecendo exige separar essas observações e depois reuni-las no mesmo quadro climático.

Gelo marinho ao redor do continente antártico visto por satélite
A extensão do gelo marinho antártico cresce no inverno e diminui no verão austral. Crédito: NASA/Dave Pape; domínio público.

A Antártida guarda vários tipos de gelo

O gelo marinho nasce quando a água salgada da superfície do oceano congela. Ele flutua, desloca água e se expande por milhões de quilômetros quadrados durante o inverno austral. No verão, grande parte derrete. Extensão, área, espessura e volume são medidas diferentes: uma cobertura espalhada com espaços entre placas pode ter grande extensão sem conter a mesma quantidade de gelo de uma camada compacta e espessa.

O manto de gelo, por sua vez, está apoiado sobre o continente. A neve acumulada durante milhares de anos foi comprimida, transformou-se em gelo e passou a fluir lentamente em direção à costa. Geleiras de descarga transportam parte dessa massa para o mar. Quando gelo que estava sobre a terra alcança o oceano, ele acrescenta água ao sistema e contribui para elevar o nível médio global.

Entre esses dois componentes aparecem as plataformas de gelo: prolongamentos flutuantes do manto continental. Como já flutuam, seu derretimento direto quase não aumenta o nível do mar. Sua função, porém, é importante. Elas exercem resistência ao fluxo das geleiras atrás delas; quando afinam ou se rompem, esse apoio pode diminuir e permitir que o gelo terrestre escoe mais rapidamente.

Um ciclo sazonal de escala continental

Ao redor da Antártida, o gelo marinho costuma atingir a menor extensão perto do fim do verão austral, em fevereiro, e a maior perto do fim do inverno, em setembro. A diferença entre os dois extremos é enorme. Isso faz da borda congelada um ambiente móvel, que avança e recua centenas de quilômetros em algumas regiões ao longo do ano.

A extensão diária depende de temperatura, vento, ondas, correntes e salinidade. Ventos podem empurrar placas umas contra as outras ou abrir áreas de água exposta. Uma mudança rápida no mapa não significa necessariamente que todo aquele gelo derreteu: parte pode ter sido transportada ou compactada. Por isso, pesquisadores acompanham a evolução durante a estação e comparam o mesmo período em anos diferentes.

Satélites de micro-ondas são especialmente úteis porque observam grandes áreas mesmo durante a noite polar e através de muitas nuvens. Algoritmos distinguem a assinatura da água e do gelo e estimam a concentração em cada célula do mapa. A série contínua desde o fim dos anos 1970 permite calcular médias e identificar anos incomuns, embora sensores e métodos também carreguem incertezas.

O que o máximo de 2026 mostrou

O NSIDC informou que o gelo marinho provavelmente alcançou sua extensão máxima em 14 de setembro de 2026, com média de 17,59 milhões de quilômetros quadrados. Se a data se confirmar, será o terceiro menor máximo do registro por satélite. A instituição ressaltou que oscilações próximas ao pico podem alterar a data e o ranking após a análise definitiva.

Durante boa parte da estação de crescimento, a extensão permaneceu perto de valores recordes baixos e abaixo da média de longo prazo. Esse comportamento dá continuidade a uma sequência recente de pouca cobertura em várias estações. Ainda assim, um máximo anual não mede espessura nem revela sozinho por que determinada região ficou com mais ou menos gelo.

Também não se deve usar esse número como sinônimo de perda do manto continental. O máximo de 17,59 milhões de quilômetros quadrados descreve a superfície oceânica com determinada concentração de gelo marinho. A massa do continente é estimada com outras técnicas. Misturar os dois indicadores produz conclusões erradas sobre nível do mar e sobre a quantidade total de água congelada.

Como se pesa uma camada de gelo por satélite

As missões GRACE e GRACE Follow-On detectam pequenas variações no campo gravitacional da Terra. Quando uma região perde grande quantidade de gelo, sua massa diminui e o sinal gravitacional muda. Os satélites não fotografam uma balança; eles acompanham alterações na distância entre duas naves e, com modelos geofísicos, convertem o sinal em estimativas de massa.

A NASA informa que, entre 2002 e 2025, a Antártida perdeu em média aproximadamente 135 bilhões de toneladas de gelo por ano, com contribuição próxima de 0,4 milímetro anual para o nível médio global do mar. Uma média para todo o período não significa que a perda foi igual em cada ano. Nevascas intensas podem produzir ganhos temporários, especialmente no leste, enquanto o oeste continua perdendo massa.

Outros satélites medem altura da superfície com radar ou laser e velocidade do fluxo por interferometria. Cada método responde a perguntas diferentes e precisa corrigir movimentos da crosta, densidade da neve e mudanças atmosféricas. Quando gravidade, elevação e velocidade apontam para padrões compatíveis, a interpretação se torna mais robusta.

Por que a Antártida Ocidental preocupa mais

Grande parte do manto da Antártida Ocidental repousa sobre terreno abaixo do nível do mar, que se aprofunda em direção ao interior. Nessa configuração, água oceânica relativamente quente pode alcançar a base das plataformas e provocar derretimento por baixo. O afinamento reduz a resistência oferecida às geleiras que drenam o continente.

As bacias dos mares de Amundsen e Bellingshausen incluem geleiras como Pine Island e Thwaites, acompanhadas de perto por satélites e campanhas de campo. A perda nessas regiões aparece com destaque nos mapas de gravidade. Isso não quer dizer que todo o manto entrará em colapso de uma só vez, mas indica vulnerabilidades que podem sustentar aumento do fluxo durante muito tempo.

A Antártida Oriental contém a maior parcela de gelo e, em algumas áreas, ganhou massa com maior precipitação de neve. Esse ganho recente pode compensar parte da perda em outras regiões durante certos intervalos. O balanço continental é a soma de comportamentos regionais diferentes, razão pela qual frases como a Antártida está derretendo precisam vir acompanhadas de lugar, período e indicador.

Gelo marinho baixo também importa

Embora seu derretimento direto quase não eleve o mar, o gelo marinho influencia a troca de calor entre oceano e atmosfera. Sua superfície clara reflete mais luz solar do que a água escura. Quando a cobertura diminui, o oceano absorve mais energia durante os meses iluminados, o que pode afetar o congelamento seguinte e a circulação local.

O gelo também oferece habitat. Algas crescem em sua base e alimentam redes ecológicas que incluem krill, peixes, aves e mamíferos. Algumas espécies usam a cobertura como plataforma de reprodução, descanso ou proteção. Alterações de data, duração e localização podem ser tão importantes quanto a média anual de extensão.

Ondas que antes eram amortecidas pelo gelo conseguem alcançar mais facilmente a costa e as plataformas quando há grandes áreas abertas. Pesquisadores investigam se isso aumenta fragmentação ou modifica a mistura do oceano. As conexões variam por região e não autorizam atribuir cada ruptura a uma única temporada de gelo marinho baixo.

Por que a resposta não é igual à do Ártico

O Ártico é um oceano cercado por continentes; a Antártida é um continente cercado pelo oceano. Essa geografia muda correntes, ventos e a mobilidade do gelo. No sul, as placas podem se espalhar para uma área oceânica ampla. No norte, costas e ilhas limitam parte desse movimento.

Durante décadas, a extensão do gelo marinho antártico apresentou pequena tendência de aumento com grandes variações regionais, enquanto o Ártico diminuía rapidamente. A partir de 2016, vários anos antárticos muito baixos alteraram o quadro observado. Cientistas estudam o papel combinado de oceano, atmosfera, variabilidade natural e aquecimento causado por gases de efeito estufa.

A complexidade regional não contradiz o aquecimento global. O sistema climático redistribui energia, e dois polos podem responder de formas e em ritmos diferentes. A pergunta científica é quanto de cada mudança resulta de forçantes de longo prazo e quanto decorre de padrões temporários, usando séries extensas, modelos e múltiplas medições.

Do gelo antártico ao litoral brasileiro

A perda de gelo apoiado em terra eleva o nível médio do mar, mas o efeito não é uniforme. Gravidade, correntes, ventos e movimentos do solo redistribuem a água. Em cada cidade costeira, o nível relativo também depende de subsidência, marés, ondas e obras locais.

No Brasil, elevação gradual do nível de base pode agravar erosão, inundações durante marés altas e impactos de ressacas. O risco cresce onde manguezais e dunas foram removidos ou onde a ocupação impede adaptação. Não é necessário esperar metros de aumento para observar prejuízos: centímetros adicionais podem elevar a frequência com que extremos ultrapassam defesas existentes.

Monitorar a Antártida ajuda a planejar infraestrutura com décadas de antecedência. As maiores incertezas sobre o futuro do nível do mar estão ligadas à resposta dos mantos de gelo, especialmente em cenários de aquecimento elevado. Reduzir emissões limita riscos futuros, enquanto adaptação costeira trata parte do impacto que já se tornou provável.

Como ler a próxima manchete sobre gelo

Primeiro, procure qual gelo está sendo medido: marinho, plataforma ou manto continental. Depois verifique a grandeza. Extensão em quilômetros quadrados não equivale a massa em toneladas nem a volume em quilômetros cúbicos. A data e a região completam a informação.

Em seguida, veja se o resultado é preliminar e qual comparação foi usada. Recorde diário, mínimo de verão e máximo de inverno não são intercambiáveis. Uma anomalia em relação à média de 1981 a 2010 pode ser diferente de uma comparação com 1991 a 2020.

Por fim, desconfie de conclusões totais baseadas em um único mapa. A Antártida tem sinais importantes de mudança, inclusive perda continental e temporadas recentes de gelo marinho baixo. Explicá-los com precisão não reduz a gravidade do problema; mostra onde a evidência é mais forte e quais incertezas ainda estão sendo investigadas.

O que podemos concluir?

O gelo antártico não está se comportando como um bloco uniforme. Em 2026, o gelo marinho provavelmente teve o terceiro menor máximo do registro por satélite, ainda sujeito à confirmação do NSIDC. Em uma escala de décadas, satélites de gravidade indicam perda líquida do gelo continental, concentrada sobretudo no oeste, com contribuição mensurável para o nível do mar. Separar extensão, massa, região e período é a melhor forma de compreender o que os dados realmente dizem.

Fontes consultadas

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